
Na década de 30 foi criado o personagem Sandman. Este era Wesley Dodds, um detetive que havia sonhado com um estranho ser, que lhe teria convencido a combater o crime. Ele o fazia usando uma máscara de gás e pistolas com soníferos, usando o nome de um personagem infantil, aqui no Brasil conhecido como João Pestana, ou João do saco, que faria as crianças dormirem com areia (daí seu nome original, o “homem da areia”). Wesley, que chegou a fazer parte da Sociedade da Justiça ao lado do Lanterna Verde e do primeiro Flash, acreditava ter feito contado com este mítico ser.
Veio então a década de oitenta, quando houve o que muitos chamam de “Invasão Britânica” na DC comics. Na trilha do sucesso de Alan Moore, muitos de seus compatriotas, escritores cults como ele, foram convidados pela editora. Nomes hoje famosos como Grant Morrison e Neil Gaiman eram esses jovens, desconhecidos e promissores escritores. Após escrever uma mini-série para uma personagem igualmente desconhecida, a Orquídea Negra, e fazer enorme sucesso de crítica e público, Gaiman recebeu a incumbência de revitalizar este antigo personagem da Era de Ouro para a Vertigo, o selo adulto da DC comics. Porém, ele lembrou de seu sangue bretão e fez as coisas um pouco além do que se esperava. Ainda bem.
Publicadas de 1988 a 1996, as 75 edições da serie regular (mais as mini-séries) exploraram não Wesley Dodds, mas o homem de sua visão, Sandman, também conhecido como Morpheus. Ele é um dos Perpétuos, seres místicos mais velhos que a própria humanidade, guardiões de aspectos importantes do universo. Desta forma, Sandman é o mestre do Sonhar, a terra dos sonhos, e vela pelo sono dos homens. Seu irmão mais velho é o Destino, justamente o primeiro dos Perpétuos a alcançar o homem, por lhe guia os passos. Há ainda Desejo, Destruição, Delírio, Desespero e Morte, a mais carismática deles, freqüentadora assídua das histórias de seu irmão.
A Morte de Gaiman, aliás, é uma personagem incrível. Vestida como as garotas góticas do fim dos anos oitenta, ela é completamente bem humorada, amorosa e carismática. Ao contrário da maioria dos artistas e filósofos, Gaiman não tem medo da morte, e nos faz perde-lo também. Já que a morte é inevitável, por que encará-la de forma melancólica? O segredo é aproveitar bem os anos antes que ela aconteça, ele diz.
No Brasil, Sandman já foi publicado por várias editoras. A pouco tempo, estava nas mãos da Editora Devir, que, apesar do ótimo trabalho gráfico, praticava preços bem abusivos. Recentemente, porém, a Editora Pixel assumiu os direitos de publicar todo o conteúdo da Vertigo, incluindo aí a obra-prima de Gaiman. A Pixel, em suas últimas publicações do gênero, vem demonstrando que pode tratar esta série como ela merece: edições bem feitas e preços amigáveis. Embora não tenha havido ainda algum comunicado oficial da editora, esperemos por esta pequena fábula moderna. Esta é a oportunidade perfeita pra o público em geral conhecer o que são quadrinhos de verdade, e deixar de pensar que a péssima série mensal dos X-men é tudo o que a nona arte tem para oferecer.